quinta-feira, 15 de novembro de 2018

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Julia Branco canta sobre si e sobre todos no álbum ‘Soltar os Cavalos’

Aos poucos, a chuva aumentava. Também aos poucos, parecia crescer a figura de Julia Branco na estreia do seu primeiro disco solo, no palco montado no Mirante Beagá, em Belo Horizonte. A vocalista da banda Todos os Caetanos do Mundo jogava em casa: era uma apresentação na sua cidade, em um festival com espaço para a música de qualidade brasileira, o Breve Festival, e, curiosamente, pouco depois dela, se apresentariam quase todos os Caetanos do mundo – ou melhor, Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso – com o show Ofertório.

Nesse duelo entre presença da artista em chamar o público para perto de si e chuva que o afugenta, no início da noite de domingo, 26, é possível dizer que Julia viveu um roteiro do filme Rocky II, estrelado por Sylvester Stallone. Quase perdeu, mas, num assombro de energia nos últimos instantes, como o personagem-título da série de filmes sobre um lutador de boxe, tornou-se vitoriosa.

A estreia de Soltar os Cavalos, álbum realizado com o auxílio do edital Natura Musical, lançado recentemente, fez com que o público deixasse as áreas cobertas e distantes do palco montado no festival mineiro e se avolumasse diante de Julia e sua banda (um trio, na verdade, formado por Luiza Brina e o incrível Chico Neves, produtor de nomes como Arnaldo Antunes, Nando Reis, Los Hermanos e Lô Borges).

Mérito das 11 canções que integram o primeiro álbum de Julia, que tratam justamente de sobreviver aos impedimentos que a vida coloca diante de nós para causar alguns tropeços. Soltar os Cavalos é, principalmente para Julia, um álbum sobre viver os 30 anos, uma carta à mulher que ela foi e à mulher que ela viria a ser após a virada de década de vida. Fala de feminismo, de vulnerabilidade, de ter medo – porque ter medo não é ruim, como ela diz.

Se uma frase do álbum pode descrever Soltar os Cavalos, de acordo com a própria artista, é também a primeira que se ouve ao dar o play . “Sou forte, sou grande, sou do tamanho do medo”, canta Julia em Sou Forte, uma canção de escolhas sonoras sombrias, feitas para criar o medo de se estar no escuro, num espaço vazio. “É um álbum que trata também da vulnerabilidade”, reflete a artista. “Não nega o medo, não finge que ele não existe. Só diz que é do mesmo tamanho do medo, para seguir adiante.”

Soltar os Cavalos nasceu de uma necessidade, embora ela não soubesse identificar qual era. De início, contudo, lá em 2016 ainda, buscou composições de outros artistas, reuniu algumas ideias. Chico Mendes, com quem ela havia trabalhado no disco da Todos os Caetanos do Mundo, chamado Pega a Melodia e Engole, de 2015, achou um absurdo Julia precisar de composições dos outros. “Eu ainda estava vivendo um processo”, ela explica. “E sentia falta do teatro.”

E aí está a genialidade de Neves. Ao saber que Julia, também atriz, sentia falta do ambiente e da arte de roteirizar e interpretar, ele sugeriu que Julia escrevesse um roteiro daquilo que seria Soltar os Cavalos. Com isso, o álbum se tornou um reflexo muito direto daquela transformação que vivia Julia no ano de 2016. Ela havia completado 30 anos.

Ela entregou um punhado de textos, canções, rascunhos a Neves, encadernado como um roteiro, mesmo. Era um manifesto sobre ser mulher, sobre mudança, sobre a vida adulta, entrelaçado por canções e faixas faladas por Julia, um retrato do momento vivido pela artista – quem acredita em astrologia sabe que ela vivia o retorno de saturno. Das faixas faladas, 30 Anos e Coisas são retratos tão fiéis que emocionam – Eu Toco é outra que merece ser ouvida. No disco, Julia Branco tem mais companhias além de Chico Neves (também produtor) e Luiza Brina, ambos arranjadores. Sobre os Cavalos também se tornou um álbum-visual no qual seis diretoras deram forma de videoclipe a também seis canções.

Soltar os Cavalos foi chamado por muita gente de “soltando os cavalos”. O gerúndio representa ação. Contínua. Movimento. Porque é isso, mesmo. “Ainda estamos passando por esse processo. É um crescimento, não é?” Como daquela artista que enfrentou o medo. O medo da chuva que ameaçava e caiu em Belo Horizonte no show de estreia. Não era maior que o medo. Era do tamanho dele. E o venceu.

SHOW DE JULIA BRANCO
Centro da Terra. R. Piracuama, 19, Perdizes, tel.: 3675-1595.
Amanhã (30), às 20h. R$ 30.
Participação de Aíla.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Pedro Antunes
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