domingo, 18 de novembro de 2018

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Filmes que refletiam o Brasil dos anos 1970

Mulheres empoderadas estão refundando o cinema brasileiro. Você olha para Gabriela Amaral Almeida e talvez tenha dificuldade de imaginar que a jovem de olhar doce seja a diretora responsável pelo banho de sangue de O Animal Cordial. Só por segurança, mantenha as facas longe dela. E Fernanda Pessoa? Não é que seja uma freirinha, mas tem jeito de tímida. Fernanda escancara o baú da pornochanchada e retoma todas aquelas histórias que o nosso cinema (não) contava. O não entre parêntese é fundamental. Contava, mas todo mundo fingia que não. De onde vem esse interesse de uma moça de boa família pelo sexo escrachado?

Fernanda conta – “Sou formada pela FAAP e fui estagiária no acervo de fotografias do cinema brasileiro. Catalogava fotos, e havia aquele monte de fotos de pornochanchada sem identificação. Comecei a ver os filmes para tentar identificar e catalogar. E descobri um material riquíssimo. O olhar de hoje me permitiu criar o distanciamento e ver que aqueles filmes malditos, muitas vezes desprezados pela crítica, estavam conseguindo colocar questões políticas e sociais que os outros filmes tinham dificuldade de abordar. Machismo, tortura, racismo, objetalização da mulher e seu oposto, o empoderamento, está tudo na pornochanchada, claro que de uma forma caótica. E assim como organizei as fotos, achei que seria interessante organizar os próprios filmes. Foi o que fiz”.

Para isso, ela admite que precisou se livrar do preconceito – “São filmes que, na perspectiva de hoje, tem visões supercomplicadas das mulheres e, ao mesmo tempo, assimilam as questões políticas essenciais dos anos 1970. E aí foi preciso todo um resgate, porque são filmes pouco vistos, pouco preservados.” A iniciativa está funcionando, porque, na crise geral que assola o cinema brasileiro – nem Benzinho nem O Animal Cordial, elogiadíssimos pela crítica, estão levando muito público às salas -, Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava não apenas se manterá em cartaz por mais uma semana como ganha mais uma sala em São Paulo e outra no Rio.

Fernanda desmonta o mito de que esses filmes não eram censurados – “Eram censurados por motivos de ordem moral, não política. Encontrei vários documentos que listam a exigências de cortes ou então mostram como produtores e diretores lutavam com a burocracia pela liberação das obras.” Mas o aspecto mais gritante talvez seja a representação do corpo feminino como moeda de troca. “É muito comum o homem oferecer dinheiro ou qualquer outra operação financeira para ter acesso ao corpo da mulher. Também encontrei uma outra coisa muito interessante, que é a analogia com as obras da ditadura militar, tipo a Transamazônica ou a Ponte Rio-Niterói. O corpo feminino vira metáfora desse projeto de Brasil grande dos militares, o que me parece tanto mais surpreendente, porque o regime buscava uma santificação da mulher para servir à pátria.”

Fernanda diz que Histórias… já nasceu com o propósito de ser um filme de montagem. “Cheguei a 30 títulos na minha pesquisa, mas pude usar só 27, por causa de direito e também de falta de condições técnicas.

Quando fiz meu mestrado na França, estudei a reutilização de imagens pelo cinema experimental e comecei a ver filmes que utilizavam o trabalho de outras pessoas para ressignificar alguma coisa. Ficou claro para mim que era o que queria fazer com as pornochanchadas”, diz.

“E, quanto mais montava (com Luiz Cruz), mais me dava conta da atualidade desse projeto. O machismo, o racismo, o preconceito. As mulheres negras são mais sexys que as brancas e quase sempre são domésticas, como se ainda se mantivesse a relação entre casa grande e senzala. A homofobia também não mudou nada – o gay é ridicularizado, motivo de riso. O comunismo é um perigo. Houve momentos em que eu me perguntava – ‘Estamos voltando a isso ou nada mudou?’. Passaram-se 40 anos e a história que esses filmes (não) contavam é a da nossa contemporaneidade.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Luiz Carlos Merten
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