quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Notícias

In:

Com trilha do blues à eletrônica, musical valoriza tom épico da obra de Tolstoi

A passagem de um cometa, para as culturas antigas, vinha carregada de maus presságios, pois anunciava tragédias. Para Pierre, no entanto, representa o primeiro sopro de uma nova e maravilhosa vida que se avizinha. Quando ele avista o corpo celeste, o musical Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812 atinge seu momento mais sublime. Sob risco de spoiler, não vale a pena avançar nas informações sobre esse momento do espetáculo que estreia na sexta-feira, 24, no 033 Rooftop, localizado na cobertura do Teatro Santander.

O espaço será outra grande novidade porque, graças à sua inusitada espacialidade, vai promover uma diferente interação entre atores e plateia. Por ora, no entanto, é preferível falar primeiro do musical. Criado pelo compositor norte-americano Dave Malloy, o espetáculo se tornou um grande sucesso logo em seu ano de estreia, com 12 indicações para o prêmio Tony de 2017, justamente por misturar tantos estilos distintos. “Saí da sessão sentindo uma extrema felicidade”, conta Zé Henrique de Paula, diretor da montagem brasileira, que viu o original na Broadway. “É um espetáculo que deseja quebrar os paradigmas do teatro musical.”

O motivo é a engenhosidade com que Malloy construiu seu trabalho. Ele selecionou um trecho de 70 páginas do livro Guerra e Paz, monumental romance escrito pelo russo Liev Tolstoi e publicado entre 1865 e 1869 no Russkii Vestnik, um periódico da época. Clássico de proporções colossais (a mais recente versão, lançada pela Companhia das Letras, tem dois volumes e um total de 1.544 páginas), descreve o cotidiano de personagens da Rússia, ao mesmo tempo em que relata os grandes acontecimentos que se sucederam à invasão de Napoleão Bonaparte em 1812, o mesmo ano da passagem de um grande cometa próximo à Terra.

“Malloy buscou justamente o trecho em que sobressai a humanidade dos personagens”, explica Zé Henrique. De fato, a história se concentra em torno de um trio. Natasha (vivida por Bruna Guerin) é uma garota que visita Moscou enquanto aguarda a volta de seu noivo Andrey (Patrick Amstalden) da guerra. Em um momento de indiscrição, ela é seduzida por Anatol (Gabriel Leone), um galanteador que já é casado. Ao se decidir por ele, Natasha vê sua posição na sociedade ser arruinada. A redenção pode estar em Pierre (André Frateschi), um solitário outsider que lhe dedica amor e compaixão. “Não sabemos se eles ficarão juntos, pois essa solução não consta no trecho do romance selecionado por Malloy”, explica o diretor.

Mas é o que menos importa – para narrar essa trama, o compositor americano criou uma mistura eclética de estilos e gêneros musicais, que vão da ópera, soul e folk à batida eletrônica. “Malloy cria vários problemas para si mesmo, mas incrivelmente consegue resolver todos”, observa a diretora musical Fernanda Maia, também autora da versão brasileira. “Ele se vale da ópera para, em seguida, tirar sarro desse estilo. É uma surpresa atrás da outra, culminando com a música eletrônica que marca a entrada de Anatol na história. É uma forma brilhante para mostrar uma mudança no curso da história.”

Fernanda está atenta também para a curiosa formação da orquestra, que tem dois cellos e uma viola, mas não um violino. “Também oboé e clarineta, instrumentos que não são habituais em musicais, além de bateria e contrabaixo. Com isso, Malloy promove uma mistura de épocas.” Ao adaptar a escrita de Tolstoi para a letra musical, o compositor manteve na íntegra diversos trechos do original. “Por isso, há momentos em que se tem a impressão de que os personagens estão apenas conversando, quando estão cantando”, explica Zé Henrique.

Em meio a tantas inovações, o público não poderia ficar distante dessa experiência. Para isso, a montagem brasileira segue à risca a original, que prevê não um palco tradicional, mas passarelas sinuosas que serpenteiam por dentro de um enorme salão vazio. Os espectadores se sentarão em mesinhas colocadas entre essas passarelas. Com isso, será possível assistir bem de perto a determinados trechos do musical. “É uma experiência que tem de ser compartilhada e não apenas assistida”, diz Zé Henrique. “A peça recria um arco da vida, que vai da juventude e esperança até angústia, desespero e iminência da morte, e que precisa ser vivenciada pela plateia.”

Até mesmo a orquestra não se mantém junta, distribuída em quatro cantos do enorme conjunto de passagens. “Foi isso que me seduziu”, contra André Frateschi, que estreia em musicais. “Nunca fui fã desse gênero – sua estética não me comove. Mas aqui as composições são sofisticadas, há um detalhamento na partitura e, mais interessante, a narrativa é muito fiel à obra de Tolstoi, especialmente por discutir a decadência russa.”

Frateschi compõe com sensibilidade a figura de Pierre, um misterioso andante que acompanha a distância a reviravolta na vida de Natasha. “E ela é como um retrato de mulher atual”, pondera Bruna Guerin. “Natasha tem o destino traçado pela família e, quando se opõe, buscando realizar o seu desejo, é condenada.” A alegria inicial até a tristeza final são exibidas com delicadeza por Bruna, atriz que se firma cada vez entre as melhores do musical brasileiro.

“Tanto refinamento não é um capricho, pois estamos diante de uma das maiores obras da literatura russa e também mundial”, observa Gabriel Leone que, nas últimas semanas, precisou se desdobrar entre os ensaios do musical e a filmagem de Eduardo e Mônica, longa rodado em Brasília e no Rio. “Nas locações, minha concentração estava na construção do personagem do filme, mas, nas horas vagas, fiz aulas de canto e ensaiei minhas canções.”

Leone já participou de outros musicais (até fez uma participação especial, durante uma semana, em Wicked), mas sabe que agora vai enfrentar sua prova de fogo. “Trata-se de um trabalho charmoso, contemporâneo, mas que encobre uma série de detalhes que não podem ser desprezados. Principalmente na encenação nas plataformas, pois teremos público em todo o nosso redor. Isso propicia uma inédita liberdade.”
Natasha, Pierre, Anatol… mas e o cometa? Novamente, o spoiler deve ser evitado. Ficam apenas as palavras de Pierre: “Dizem que ele traz o fim dos tempos, o horror do final. Mas, para mim, não há o que temer, eu olho com êxtase. O astro então desenhou a parábola, seu trajeto veloz pelo tempo fugaz. De súbito, estancou, como flecha aguda no céu, só pra mim. E pareceu que o cometa via minha alma melhor que ninguém e um novo coração florindo porque eu acordei”.

NATASHA, PIERRE E O…
033 Rooftop. Cobertura do Teatro Santander. Complexo do Shopping JK. Av. Juscelino Kubitschek, 2.041. 6ª, 21h30. Sáb., 16h e 21h30. Dom., 19h30. R$ 130 / R$ 160. Até 25/11. Estreia 24/8

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Ubiratan Brasil
Copyright © 2018 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.

Compartilhe:

Comente no Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com