quarta-feira, 19 de setembro de 2018

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‘O fim do acordo será o fim de Rohani’

O Irã reagirá com cautela à decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de abandonar o acordo sobre seu programa nuclear, avaliou o professor Hooshang Amirahmadi, da Universidade Rutgers e presidente do American Iranian Council (AIC), entidade dedicada ao estudo das relações bilaterais. Em sua opinião, o naufrágio das negociações levará ao fim da presidência de Hassan Rohani e sua substituição por um governo conservador, que poderia negociar um novo pacto com os EUA. A seguir, trechos da entrevista.

Quais são as consequências da decisão de Trump?

O governo iraniano terá de decidir se fica no acordo com europeus, russos e chineses ou se o abandona. Acho que o Irã não sairá no futuro imediato e será muito cauteloso em sua reação. A segunda coisa é o que de fato acontece no Irã. Haverá muita decepção entre a população iraniana com relação ao governo de Rohani. É possível que ele seja obrigado a renunciar e seu governo entre em colapso. Ele seria substituído por um grupo mais linha dura e militarizado. Por fim, acredito que o novo governo começaria a negociar com os EUA. O anúncio de Trump de que está pronto para negociar significa que ele colocou sua ideia de mudança de regime no Irã em compasso de espera, enquanto descobre o que Teerã pretende fazer.

A decepção no Irã é com os EUA ou com Rohani?

Com ambos. A maioria dos iranianos acredita que o governo Rohani não fez um bom trabalho na negociação do acordo. Eles negociaram com um governo que estava no fim, não anteciparam uma mudança de governo nos EUA e não trabalharam com os conservadores em nenhum dos dois países durante as negociações. Há insatisfação com o time de negociadores e com o governo que assinou esse tratado sem avaliar suas implicações. Além disso, eles implementaram o acordo muito cedo, sem ter segurança de que o outro lado iria de fato cumprir suas promessas.

O pacto sobrevive sem os EUA?

O Irã não deixará o pacto facilmente, a menos que outras coisas ocorram. Mas a permanência ou não agora é irrelevante. O acordo já estava morto. O que Trump fez foi enterrá-lo. Se os EUA ficarem mais agressivos, impuserem mais sanções e começarem a tentar derrubar o regime, com o financiamento da oposição, então, o Irã poderá sair não só do acordo nuclear, mas também do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Eles poderão adotar o mesmo caminho da Coreia do Norte há alguns anos. Isso dependerá das ações americanas.

A decisão de Trump aumenta o risco de um confronto militar na região?

Não creio que neste momento os americanos sejam a favor de uma invasão ou um ataque contra o Irã. No entanto, se o Irã deixar o acordo e retomar o seu programa nuclear, essa possibilidade seria muito alta. Mas creio que o Irã será extremamente cauteloso. Se recomeçar seu programa, o país será atacado pelos israelenses, americanos ou até pelos sauditas. A decisão se haverá uma guerra está nas mãos do governo iraniano.

Qual é a chance de um novo acordo?

Com o atual governo do Irã, zero. Porque o Estado iraniano não permitirá que as mesmas pessoas negociem com os EUA de novo. A única opção seria um novo governo iraniano semimilitar.

A economia do Irã já está em crise. O que acontecerá com o restabelecimento das sanções?

Acredito que 80% dos problemas econômicos têm a ver com má administração, não com as sanções. O governo é muito ineficiente e corrupto. Por isso, as sanções vão provocar dano e a economia continuará a escorrer pelo ralo todos os dias.

O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, saiu fortalecido com a decisão de Trump?

Sim. Ele é a favor da mudança de regime e da guerra com o Irã. Sua posição é muito clara. Quer convencer os EUA a destruir o regime, colocar outro grupo no poder e desmantelar o país. Essa é sua posição há muito tempo. Com Trump, ele tem uma chance de ser bem-sucedido. Mas tudo depende de como o Irã se comportar. Se tudo permanecer como está, não creio que Netanyahu conseguirá convencer os EUA a atacar o Irã. Isso só ocorrerá se o Irã retomar seu programa nuclear.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Cláudia Trevisan, correspondente
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