segunda-feira, 19 de novembro de 2018

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Ao escrever sobre o céu, revolucionário influenciou literatura

Por Laura Erber

Redigido na prisão do forte de Taureau, pequeno ponto perdido na baía de Molaix, na Bretanha, o breve e visionário “A Eternidade pelos Astros”, escrito pelo “eterno conspirador” Louis-Auguste Blanqui (1805-1881), está acessível agora ao leitor brasileiro, em edição da Cultura e Barbárie, com tradução de Takashi Wakamatsu e prefácio de Jacques Rancière.

Essa obra breve, estranha e fecunda foi escrita em 1871, quando Blanqui cumpria pena por insurgir-se contra a monarquia. De sua cela não podia vislumbrar o mar que o circundava, mas é provável que conseguisse observar as estrelas.

Referência tanto para a literatura moderna quanto para o pensamento político de esquerda, e de maneira particular para o socialismo francês, Blanqui opunha-se ao imperativo do progresso contínuo e ao positivismo como ideologia dominante.

O livro é fruto do que C. S. Peirce chamou de “interioridade inspirada”, mas o céu e os astros de que trata já não são mais regidos pela escatologia, tampouco a eternidade de que fala seria uma temporalidade sem saída, enclausurada em si mesma, geradora de conformismo.

Ao contrário, sua hipótese astronômica é a da existência de “choques ressuscitadores” capazes de reacender astros já extintos.

Quando fala de cometas, emprega termos militares; daí que esse choque revivificador seja visto como confronto entre os corpos celestes. Não é uma alegoria da revolução, mas uma imagem cuja lógica se baseia numa hipótese favorável à energia revolucionária entendida como renovação.
Adepto da revolução armada e da tática de putsch, apesar das divergências, foi reconhecido por

Marx como um dos corações do partido proletário francês.

Admirado por Nietzsche, que nele se inspira para elaborar a teoria do eterno retorno, e por Walter Benjamin, para quem representou o grande terremoto do pensamento do século 19, seu livro também teve papel determinante na literatura de Borges e Bioy Casares.

Estes viram no uso original que Blanqui faz do clínamen -termo cunhado por Lucrécio para descrever os desvios sofridos pelos átomos- um dispositivo a ser explorado pela literatura.

O jardim borgiano dos caminhos que se bifurcam, assim como “A invenção de Morel”, de Bioy Casares, dão testemunho da fecundidade desse texto no plano literário.

Segundo suas teses, o universo infinito é feito de vários planetas Terra sósias, com sósias de nós mesmos. Não há progresso nem comunicação entre esses planetas, apenas a multiplicação ao infinito de situações que se repetem -como Sade, Blanqui não cai na tentação de formular uma teoria edificante.

Tudo isso que parece preparar terreno para o desespero desolador conduz, na verdade, à libertação da crença na história –e na história como fonte de aprendizagem do mundo–, e a uma virada surpreendente na noção de repetição. A repetição que observa na vida dos astros não é motivo de resignação; sua descrição mostra a força do choque regenerador que coloca uma repetição contra a outra no momento decisivo.

As opressões também se repetirão, o horizonte aberto por Blanqui não se restringe mais ao binarismo entre a resignação e as ilusões do progresso social.
Ao abandonar noções de acumulação e linearidade, Blanqui cria uma bifurcação prodigiosa, uma hipótese que injeta energia nos vencidos.

Daí sua importância também para nós hoje, neste século em que, como escreveu Daniel Bensaïd -outro grande admirador de Blanqui- o horizonte parece limitado à gestão prosaica de um presente sem futuro.

A ETERNIDADE PELOS ASTROS
AUTOR Louis-Auguste Blanqui
TRADUÇÃOTakashi Wakamatsu
EDITORA Cultura e Barbárie
AVALIAÇÃO ótimo

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