domingo, 22 de setembro de 2019

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A luta de famílias para salvar presos que sabiam que ‘iam morrer’

Por Redação com BBC Brasil
 Preso mostra perna machucada durante chacina no Compaj (Foto: FELIPE SOUZA/BBC Brasil)


Preso mostra perna machucada durante chacina no Compaj (Foto: FELIPE SOUZA/BBC Brasil)

Do lado de dentro, condições insalubres, isolamento e uma permanente tensão causada por frequentes rebeliões e ameaças de morte. Do lado de fora, os parentes dos presos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) e da cadeia pública Vidal Pessoa, em Manaus, que não cometeram nenhum crime, mas também enfrentam condições difíceis. Alguns chegam a passar fome. Tudo para tentar garantir uma vida menos pior para quem está do lado de dentro da fronteiras de concreto e aço.

Para muitos, a luta é para garantir que seus entes presos continuem vivos. Muitos relataram que entregaram cartas à diretoria da prisão, denunciando ameaças recebidas por internos e que contraíram dívidas com advogados na tentativa de tirá-los de lá.

Em uma demonstração de desespero, famílias de presos na cadeia pública passam o dia na calçada pedindo ajuda para todas as pessoas que entram no local. A intenção delas é mostrar que detentos estão sendo ameaçados no local e precisam ser transferidos para não morrer.

Elas disseram que quase não recebem apoio jurídico e que apenas haverá um mutirão no próximo dia 20 para ajudar as famílias dos presos mortos nas chacinas.

A reportagem da BBC Brasil foi cercada por vários familiares durante visita ao presídio nesta semana.

“Moço, me ajuda, eu não sei mais o que fazer. Estão dizendo que vão cortar a cabeça do meu irmão lá dentro”, afirmou uma das mulheres. Segundo ela, o detento sofre ameaças desde que estava no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj).

O preso sobreviveu à matança que deixou 56 mortos do primeiro dia do ano e relata à família que continua num ambiente de constante tensão.

Condições de vida – A BBC Brasil conversou com familiares de presos mortos e de outros que ainda estão nos presídios onde ocorreram as rebeliões que deixaram 64 mortos em Manaus.

Para tentar melhorar as condições de vida no presídio, eles contaram que chegaram a comprar tinta para pintar as celas dos internos em setembro de 2016. Além disso, uma das famílias relatou ter levado até material cirúrgico, como gazes e esparadrapo, para que um dos internos pudesse ser operado dentro da penitenciária.

A empresa Umanizzare, que administra o Compaj, confirmou essas declarações. Em nota, ela informou que a entrada da tinta no presídio foi autorizada pelo Estado, mas não informou por que ela mesma não fez o serviço, já que ela é paga para cuidar da gestão, operação e manutenção do local.

Em relação aos materiais cirúrgicos, a empresa disse que faz apenas atendimentos básicos dentro da unidade. As cirurgias de alta e média complexidade são feitas em outros locais. A empresa não comentou o caso questionado pela reportagem.

Os familiares disseram ainda que, muitas vezes, a comida oferecida está estragada, como feijão com vermes e água com gosto de ferrugem.

A mãe de um ex-detento afirmou que chegou a passar fome para comprar comida e levar para ele na cela. Até mesmo a cesta de Natal que ganhou da empresa no fim do ano foi para o filho.

No desespero de tentar tirá-los de dentro do presídio, parentes dos presos fazem dívidas para pagar honorários a advogados. “Um deles pediu quatro mil reais para tirar meu filho de lá. Tirei dinheiro de onde já não tinha e, quando eu estava terminando de pagar, o advogado desistiu da ação. Perdi meu chão”.

O mesmo aconteceu com a irmã de um detento morto na Compaj. Ela relata que o interno começou a ser ameaçado constantemente, mas não teve sua transferência autorizada. Ela decidiu recorrer a um advogado. O defensor pediu R$ 2 mil para conseguir libertar o preso. Mas a família, de origem muito pobre, não tinha a quantia.

“Em novembro, ele mesmo começou a falar que era para eu parar de me preocupar com isso. Ele já sabia que morreria em breve”, disse.

Sem velório – Além de passar anos ou até décadas sofrendo junto com os presos, os parentes daqueles que morreram no Compaj não puderam velar os corpos deles. Tudo por medo.

A maior parte dos detentos mortos nas chacinas em Manaus estava no “seguro” – celas onde ficam os presos ameaçados de morte. Essa ala abriga, por exemplo, estupradores, membros de facções rivais e ex-policiais militares. Por esse motivo, a identidade de nenhum de seus parentes será revelada nesta reportagem.

Chorando, uma das mulheres relatou à BBC Brasil que seu marido foi esquartejado, teve os olhos arrancados e o corpo carbonizado. Devido à dificuldade de identificação de algumas vítimas e o medo das famílias de sofrerem represálias no Instituto Médico Legal (IML), o último corpo só foi enterrado oito dias após a matança no Comparj.

Tragédia anunciada – Ao falar da chacina no Compaj, todos os parentes ouvidos pela BBC Brasil afirmaram que já a previam. Eles disseram ter entregado cartas escritas por internos para o diretor da unidade denunciando constantes ameaças.

“Uma vez, fui fazer visita e os rivais mostraram um monte de armas para ele na minha frente. Eles queriam causar terror contra quem eles não gostavam”, disse a mulher de um detento morto.

Os familiares contaram que a Secretaria da Administração Penitenciária sabia das ameaças e não tomou nenhuma providência. À frente da pasta, Pedro Florêncio afirmou, em encontro com autoridades e órgãos de direitos humanos nesta semana, que o setor de inteligência do governo havia identificado apenas que haveria uma tentativa de “fuga em massa”.

A irmã de um preso disse que ele recebia ameaças constantes de que teria a cabeça arrancada.

Com as mãos suadas e os olhos cheios de lágrimas, a mãe de um dos detentos afirmou que seu filho também vinha sofrendo intimidações.

“Ele disse que a cadeia estava ‘balançando’ e que iria estourar a qualquer momento”.

Ela contou ter percebido “algo estranho” no dia das mortes em massa. A preocupação aumentou quando o filho pediu para que ela voltasse para casa antes do horário de visitas acabar.

“Ele disse para eu pegar um ônibus e ir embora. Então eu dei um abraço nele. Ele disse que me amava e eu também. Dei a bênção a ele e fui”.

 

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