sábado, 25 de Maio de 2019

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Os heróis que reduziram uma doença mundial a apenas 27 casos

Por Redação com El País Brasil

ulher vacina menina contra a pólio em Peshawar (Paquistão). Foto: A. Arbab / EFE

Mulher vacina menina contra a pólio em Peshawar (Paquistão). (Foto: A. Arbab/EFE)

“É assim que vocês querem que seus filhos vivam? Como eu?” O irlandês Jim Costello se dirige aos pais que rejeitam vacinar seus filhos e aos terroristas que atacam as equipes de vacinação em países como Paquistão e Nigéria. Costello tinha 15 anos quando, em 1958, foi ver uma partida de rúgbi e se infectou com o vírus da pólio. O micro-organismo, procedente de água ou alimentos contaminados com matéria fecal, penetrou em seu sangue, se propagou pelos nervos e paralisou a parte superior de seu corpo, incluindo os músculos que movem os pulmões.

“Querem que seus filhos vivam como eu?”, insiste. Mais de meio século depois da infecção, Costello, de 73 anos, se desloca em cadeira de rodas porque mal pode dar alguns passos. E seus braços estão totalmente paralisados. Ele passou anos inteiros de sua vida internado em um hospital de Dublin e encerrado permanentemente em “um pulmão de aço”, um enorme tanque cilíndrico para respirar de maneira mecânica. Depende por completo de sua companheira, Delia.

Costello é um dos 700.000 sobreviventes da pólio que vivem na Europa. Dedicou a vida a lutar pelos afetados pela pólio e a conscientizar as autoridades a erradicar a doença, muito contagiosa. Em 24 de outubro, Dia Mundial da Luta contra a Poliomielite, o irlandês recebeu uma homenagem como “herói da pólio”, em um ato no Instituto Pasteur de Paris. No dia seguinte, nos arredores de Peshawar, no Paquistão, uma bomba matou um policial que escoltava uma equipe de vacinação antipólio.

“Há muita pobreza, as pessoas são analfabetas, e isso explica em parte a resistência à vacinação”, lamenta Latif, um professor paquistanês de 40 anos que arrisca a vida como voluntário para lutar contra a doença. Em 2012, ele mesmo levou um tiro na perna. Em algumas zonas isoladas de seu país triunfou a ideia de que a vacina contra a pólio é um plano maléfico do Ocidente para esterilizar os muçulmanos.

Sala com 'pulmões de aço' no centro Rancho Los Amigos (EUA), em 1952.

Sala com ‘pulmões de aço’ no centro Rancho Los Amigos (EUA), em 1952.

Em abril, outros três policiais que faziam a escolta de equipes médicas foram metralhados em Karachi. Em janeiro, um terrorista suicida detonou uma bomba diante de um centro de vacinação contra a pólio da cidade de Quetta, matando outras 15 pessoas. Desde 2012 foi assassinada uma centena de pessoas em ataques contra a campanha de vacinação.

Azra, outra vacinadora paquistanesa, reconhece em um vídeo projetado em Paris que recita o Corão e pede a proteção de Deus antes de sair com sua geladeira portátil para distribuir a vacina pelo sul da província de Punjab. “Algumas pessoas religiosas acham que as vacinas provocam pensamentos imorais”, afirma.

Latif, que como Azra não divulga seu sobrenome, por segurança, diz viver sem medo. Está há mais de duas décadas como membro do Rotary International, uma organização sem fins lucrativos cujo milhão de voluntários ajuda a derrotar o vírus. Em 1988, quando os governos lançaram a Iniciativa Mundial para a Erradicação da Poliomielite, a doença paralisava ou matava 350.000 pessoas por ano em 125 países. Em 2016 só foram registrados até agora 27 casos, no Paquistão, Afeganistão e Nigéria. Poderá ser a segunda doença humana erradicada da face da Terra, depois da varíola.

Latif (esquerda), em uma reunião com autoridades de uma zona isolada do Paquistão, em março.

Latif (esquerda), em uma reunião com autoridades de uma zona isolada do Paquistão, em março.

Na segunda-feira, Azra e Latif também foram homenageados em Paris como “heróis da pólio”, em um ato organizado pelo Rotary International e a farmacêutica Sanofi Pasteur, que pagou a viagem do EL PAÍS à capital francesa. A empresa, gigante mundial do setor, é a principal fabricante das duas vacinas de referência contra a doença: a oral e a injetável com vírus inativado.

A oral foi crucial para reduzir os casos em 99,9%, já que é muito fácil de administrar, provoca imunidade no intestino e interrompe rapidamente a transmissão do vírus ao meio ambiente. É a que distribuem, casa a casa e criança a criança, Latif e Azra. No entanto, a Organização Mundial da Saúde recomendou a adoção gradual da injetável, porque elimina o risco, mínimo, de que surja uma poliomielite paralítica associada à vacina oral, que contém vírus debilitado. As duas vacinas estão livres de patentes desde sua descoberta na década de 1950.

“Graças à campanha mundial de vacinação foram evitados 15 milhões de casos de poliomielite paralisante. Um total de 15 milhões de crianças que não iriam poder caminhar podem fazê-lo. O benefício humano é enorme”, aplaude André Doren, estrategista-chefe da iniciativa da erradicação na OMS. “Não podemos parar até todo o mundo estar imunizado”, acrescenta Doren, cuja organização tem de pactuar tréguas para que seja possível a vacinação em lugares conflituosos, como os povoados nigerianos controlados pelo grupo terrorista Boko Haram.

A Iniciativa Mundial para a Erradicação da Poliomielite é o maior esforço internacional na história da saúde pública. É encabeçada pela OMS e a UNICEF com outros órgãos, com a indispensável ajuda de 20 milhões de voluntários como Latif e Azra, que imunizaram mais de 3 bilhões de crianças nas últimas duas décadas. O objetivo é que o planeta esteja livre da pólio em 2018.

“A erradicação da pólio chegou às pessoas mais marginalizadas das regiões mais isoladas do planeta, no Iraque, Síria, Somália, Afeganistão… Mas enquanto não for erradicada, o vírus lutará por sua sobrevivência e pode ressurgir”, alerta o médico paquistanês Mufti Zubair Wadood, coordenador das campanhas da OMS contra a pólio no Paquistão e Afeganistão.

A norte-americana Kimberley Thompson, catedrática em Medicina Preventiva da Universidade da Flórida Central, faz um chamado a não se deixar levar pela confiança: “Enquanto houver pólio no mundo, o risco existirá para todos, estejamos onde estivermos. O risco de que você se infecte continuará aí, todo mundo precisa ter isso claro. A pólio não conhece fronteiras”.

 

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