sexta-feira, 19 de outubro de 2018

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Temer precisa mostrar a que veio

Por Redação com G1
(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Enquanto o premiê japonês, Shinzo Abe, apareceu de Super Mario, o presidente em exercício, Michel Temer, nem deu as caras ontem no carnaval de encerramento da Olimpíada. Mas enfiar a cara no chão não muda a realidade. Com o fim dos Jogos, o país volta a encarar seus problemas. Quatro eventos se misturam no futuro próximo para Temer, num calendário apertado até o final do ano: impeachment, eleições municipais, aprovação no Congresso do teto de despesas e Operação Lava Jato.

 

Apesar de chamar a atenção nos próximos dias, o impeachment é o menos relevante deles a esta altura. Como a remoção definitiva de Dilma Rousseff é dada como certa, daqui a dez dias o Brasil estará diante de um quadro político novo.

O primeiro elemento desse quadro é a já consumada perda de espaço do PT. Além do impeachment, o partido sofrerá derrotas relevantes nas eleições municipais, sobretudo em São Paulo, onde as chances do prefeito Fernando Haddad variam na estreita gama entre ínfimas a irrisórias. Votos, ele terá, claro. Mas nenhum João Santana será capaz de redimir a imagem petista diante do eleitor paulistano.

No lugar da hegemonia petista apoiada pelo PMDB fisiológico, emergiu uma aliança de ocasião, urdida em torno da presidência interina de MIchel Temer. Os principais pilares dessa aliança, PMDB e PSDB, são aliados em diversos municípios, adversários em outros. Não é, de todo modo, uma aliança serena. Fissuras tendem a aparecer, não apenas por causa das tensões inerentes ao pleito de outubro.

O principal ponto de dúvida é o projeto econômico ainda indefinido do governo. Temer apostou suas fichas na criação do teto para os gastos públicos e pretende apresentar um Orçamento com déficit de R$ 139 bilhões em 2017. O mercado lhe deu uma colher de chá enquanto aguarda o impeachment. Mas é evidente que nada do que foi apresentado pelo governo até agora basta para recolocar a economia nos trilhos.

Os pontos mais sensíveis – reformas previdenciária, trabalhista e administrativa – estarão sujeitos à dança do caranguejo que tem marcado a gestão Temer, cheia de recuos ao sabor das ondas. A negociação entre Executivo e Legislativo, característica central da nossa democracia, poderá desfigurar qualquer proposta mais consistente de reformas, se não houver determinação do presidente.

Numa leitura simplificadora, o PSDB tende a defender as reformas de modo mais insistente dentro da aliança governista, enquanto os caciques do PMDB tendem a demonstrar maior flexibilidade diante das resistências no Congresso. O resultado dessa tensão é uma incógnita. De todo modo, dificilmente corresponderá ao plano idealizado pela equipe econômica. A boa vontade do mercado acaba no instante exato em que Dilma estiver fora definitivamente.

O último complicador é a Lava Jato, de onde pode emergir todo tipo de denúncia. Estão na mira das investigações figuras essenciais para o governo, como o presidente do Senado, Renan Calheiros – alvo de diversos inquéritos –, ou o chanceler José Serra – alvo de acusações em delações ainda não homologadas. O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, também é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), por denúncias ligadas à Lava Jato. Finalmente, o próprio Temer foi citado em mais de uma delação como beneficiário de esquemas de corrupção.

A Lava Jato anda devagar em Brasília. Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) não têm a mesma agilidade que o juiz Sérgio Moro na condução dos processos. Mas os casos não estão parados. É impossível prever que tipo de prova surgirá, quem se tornará réu e quem será condenado. O impacto de uma investigação determinada de todas as denúncias seria devastador sobre o governo Temer.

Em vez de celebrar a queda de Dilma e o afastamento do PT do poder, é preciso olhar para a frente. O fim do descalabro escandaloso nas contas públicas e da contabilidade criativa não basta. O Estado precisa encolher. Os corruptos precisam ser presos. O país precisa andar. Temer tem pouco tempo, age com hesitação e, aparentemente, sem a convicção necessária para liderar as reformas de que o Brasil precisa. Ou mostra logo a que veio, ou o resultado até 2018 será muito pior que a ressaca olímpica que o país começa a viver a partir de hoje.

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