sábado, 14 de dezembro de 2019

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Artista plástica alagoana tem reconhecimento internacional

Por Lucianna Araújo
GEOVANA CLÉA é de Inhapi, mas faz sucesso na Europa e em outros países do mundo com sua arte

GEOVANA CLÉA é de Inhapi, mas faz sucesso na Europa e em outros países do mundo com sua arte

Alagoas é realmente um lugar de muitas belezas naturais, mas que também “produz” muitos talentos em diversas áreas artísticas e culturais. E um desses talentos é a artista plástica, e também escritora, Geovana Cléa. Natural de Inhapi, no sertão alagoano, ela iniciou a carreira há 20 anos, e hoje mora em Milão. Começou pelos livros de Jorge Amado e de Júlio Verne, onde soltava a imaginação a partir do universo mágico que os livros proporcionavam. Escrevia muitas cartas, letras de músicas e poesias, e “pintava” dentro de si todas as histórias lidas e contadas. Mas quando foi estudar a língua italiana, em Florença, na Itália, teve um contato mais íntimo com o mundo das artes. De apreciadora das obras de artistas famosos, como Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Botticelli, passou a ser admirada e aclamada por pessoas de diversas partes do mundo, pela sua arte expressionista abstrata conceitual. Ela já expôs em Milão, Roma, Turim, Paris, Lyon, Los Angeles, Lisboa, Suíça, Áustria, Principado de Mônaco, Nova York, Monte Carlo, entre outras cidades. No ano passado, participou da 54ª Bienal de Veneza, com quatro obras da coleção “Origens e Sentimentos”, onde faz uma homenagem ao Brasil. Geovana, também expôs três vezes no Salão Nacional de Belas Artes, no Museu do Louvre, instalado dentro do Palácio do Louvre, em Paris. A última vez, em 2014, a artista recebeu um importante prêmio pelas obras “Earth” e “World of the Minerals”. O salão de Belas Artes é também conhecido como “Salão dos Impressionistas”, por já ter recebido obras de artistas como Picasso, Monet, Matisse e Renoir. Além das premiações que já ganhou como artista plástica, Geovana também colhe os bons frutos por causa de duas obras literárias. Na última sexta-feira (11), ela tomou posse como membro imortal da Academia Luminescência Brasileira (Alubra) de Ciências, Letras e Artes de Araraquara, interior de São Paulo. Agora, ela ocupa a cadeira de número 64 da Academia.

Tribuna do Sertão (T.S.) Quando você iniciou sua carreira artística?

Geovana Cléa (G.C.) Minha carreira iniciou há 20 anos, quando pela primeira vez comecei a entrar no mundo da arte. Passei um ano estudando língua italiana e arte em Florença, na Itália, e vivi a arte de várias formas. Mas ainda não entendia o quanto tantas pessoas, mundo afora, apreciavam e colecionam obras de arte.

(T.S.) O que te motivou a pintar?

(G.C.) Comecei a pintar muito jovem, mas a arte contemporânea não foi a primeira arte que tive contato.
Quando eu era criança, morei muitos anos no sertão, em Inhapi. Meus pais eram muito empenhados, e o meu sonho era ser cantora. Passava horas escrevendo canções e tentava dar a cada uma um ritmo. Depois, mesmo sem saber que escrever era algo tão precioso e sem noção nenhuma do que estava fazendo, eu escrevia cartas, muitas cartas lindas de amor para todas as pessoas que eu gostava muito.
Um dia, o meu pai voltou de viagem e me fez uma surpresa linda. Ele me pediu para abrir a mala do seu carro, que estava entreaberta, pois ali tinha um presente dele para mim. Quando abri a mala descobri que ela estava cheia de livros, uma minibiblioteca. Nem eu imaginava o valor daquele gesto, mas hoje sou muito grata. Li Jorge Amado, Julio Verne, Daniel Defoe, na época eu tinha uns 13 anos. E todo o tempo que eu tinha era muito, e nesse tempo eu me dedicava à leitura. Somente com a minha experiência de estudo na Itália, comecei a viver a arte com totalidade. Até que não consegui mais parar. Mas o mais importante è que para mim, a pintura começou a ser intelectualizada em mim já durante todas as minhas viagens nos livros que li. Para mim, um quadro é como um livro de história ou de poesia.

(T.S.) Você foi morar na Itália, em Milão. Como foi a sua ida para a Europa? Qual foi o incentivo que recebeu para deixar a sua terra e “arriscar” em um lugar desconhecido?

(G.C.) Sou casada com um italiano e tenho dois filhos ítalos-brasileiros. Mesmo tendo morado um tempo, já casada, no Brasil, pensei em fazer um retorno à Europa, onde sabia que a minha arte seria vista e apreciada da maneira que merecia. A verdade, também, é que perdi o meu pai quando era muito jovem, e depois disso comecei a me sentir muito sozinha. Voltei de Florença quando ainda era solteira e pude viver alguns poucos anos mais perto dele. Depois de Deus, tudo que tenho e sou devo ao meu pai. Ele sempre acreditou em mim e me incentivou a fazer tudo que eu sonhava, mesmo que tivesse todo mundo contra. Ele acreditava e investia.
Meu pai foi um homem lindo, de coração enorme e de grande honestidade. Quando eu o via de fora, enxergava nele um homem corajoso, grato, honesto e muito forte, e era isso que me fazia não ter medo de nada. O povo do sertão é um povo muito forte, não desiste fácil do que sonha, e para uma grande parte, o coração e a lealdade é a maior luz que eles têm diante deles. Era assim que eu via seu Luiz, meu painho, meu grande inspirador, alguém que me ajudou a nunca desistir de tudo que sonhava. Tenho somente a agradecer a Deus, que me deu um pai que irá viver para sempre dentro de mim, e com quem tive a honra de viver perto por 22 anos. E foi tudo isso que me incentivou a correr atrás do meu sonho.

(T.S.) Onde você busca inspiração para pintar, ou mesmo para escrever os seus livros? E quais os materiais que você usa na hora de compor uma tela?

(G.C.) Utilizo tintas acrílicas, metais líquidos, ouro em pó, tintas tridimensionais, entre outros materiais que às vezes incorporo, como resina, pedras, areia quartzo ou cristais de Swarovski, meu “partner” na nova coleção. A minha arte é toda inspirada na natureza, a geologia, sinto que pintar minhas telas é falar de mim mesma e de tudo que amo, e tudo que lembra o que vivi de bom na vida. Me inspiro no mar, nas pedras do Brasil, na terra rachada do meu sertão e no verde dos nossos coqueiros e matas.

(T.S.) Você consegue enxergar a arte em todas as coisas?

(G.C.) A arte está em tudo, vivemos dentro de um quadro lindo e precioso chamado vida.
A natureza, a vida, a minha fé e principalmente o amor, que é a minha grande inspiração. Sinceramente, amo a arte, mas a minha inspiração não vem de outros artistas contemporâneos como eu.
Procuro não olhar muito. Gosto de inventar e não de copiar, mas posso te dizer que a arte que mais me inspira é a musica. Nunca pinto sem ela. De qualquer forma, apreciou muito Salvador Dali, Vasilij Kandinskuj, amo o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e o escultor italiano Arnaldo Pomodoro. Outra brasileira que gosto muito é Beatriz Milhazes.

(T.S.) Qual a sua opinião sobre o mercado das artes plásticas no Brasil? Qual a diferença entre o mercado brasileiro e o europeu?

(G.C.) O Brasil já tem um mercado de artes, se bem que é muito seletivo. Existem brasileiros muito conceituados no mundo da arte internacional. O mercado da arte é principalmente concentrado em São Paulo, onde galerias famosas participam de feiras como a Art Basel, por exemplo. Hoje, o colecionador prefere pagar um milhão de dólares por um artista consagrado, do que comprar outra obra de mil dólares. Acredito e sei que arte para os colecionadores seja um investimento.
Por exemplo, quem comprou a arte de Jackson Pollock e pagou dois mil ou cinco mil dólares, hoje tem um quadro que pode chegar a valer dez milhões de dólares.
Os investidores da arte não compram obras para decorar uma sala, o investidor ou colecionador compra para investir. Já existem muitos investidores importantes no Brasil, inclusive em Maceió. Acredito que assim como comprar uma bolsa ou um carro de luxo, com o tempo as pessoas irão colecionar mais e mais obras, pois uma obra não é somente um quadro pra enfeitar uma sala, uma obra é a alma de alguém que tem um dom e com esse dom conta histórias através das cores.
Quando alguém compra arte, compra um pedaço do coração e da alma do artista, além de poder um dia ter muito orgulho de ter um pedaço de história pendurado em casa. Toda obra é vida.

Para fluir, a arte precisa estar aliada ao bom estado de espírito

(T.S.) Como você acha que a arte pode atingir as classes menos favorecidas? O que seria necessário para que as pessoas tivessem mais acesso às artes, de maneira geral?

(G.C.) Olha, tem anos que pinto, e 20 anos espero. Que esta entrevista possa chegar ao coração de quem esta lendo. Para a cultura, muitas vezes existe pouco incentivo. Muitos artistas acabam desistindo, mas a arte é fundamental. O que seria do mundo sem as cores, tintas, teatro, música, cinema, literatura e poesia? Seria triste, seria muito vazio. A arte é como o mar, que passando sempre na frente dele todo dia, chega um dia que a gente nem olha mais. O mundo é cheio dela. O que é necessário é que ela tenha o valor que merece, mas já que é difícil esperar que alguém faça algo pela cultura, que façamos nós, cada um de nós, valorizando a música, o filme, a peça teatral, uma pintura, escultura, uma poesia, um livro, que a gente goste. Não esquecendo que essas coisas que amamos, seja qual arte for, ela foi feita com o seu tempo, com atenção, com amor, com dedicação. Muita gente acha que o artista não gosta de trabalhar. Ninguém sabe o trabalho que é ter que estar sempre no melhor estado espiritual, para poder concentrar o meu tempo e realizar as minhas obras. A maior parte das pessoas faz trabalhos práticos. Mas o artista tem que criar o que ele vai mostrar. O artista é um ser completamente ligado à espiritualidade.
Para ter acesso a arte é necessário apreciar cada uma delas, ou pelo menos aquela que a gente gosta mais. Para quem não pode comprar um quadro, basta guarda-lo na mente e no coração. Esse gesto já vai fazer com que a pessoa o tenha através do amor.

(T.S.) Qual o seu maior sonho como artista plástica?

(G.C.) Que quem tiver a oportunidade de conhecer a minha arte saiba que a mulher que a criou nunca desistiu de sonhar e lutar, E mesmo quando eu não estiver mais no plano terreno, ela possa inspirar como exemplo e como história. E quem sabe doar o sentimento que sempre me motivou: o amor. Meu maior desejo é inspirar os jovens da nossa terra a apreciar a arte.

(T.S.) Quando você irá expor o seu trabalho em Alagoas?

(G.C.) Tem uma galeria linda e muito profissional, a Galeria Gamma de Dalmo Peixoto e Verinha Gamma, com quem tenho a honra de iniciar um trabalho. No próximo dia oito (8) de outubro, as minhas quatro obras da coleção “Origens e Sentimentos” dedicada ao Brasil e às minhas origens, estarão na Galeria Gamma, em Maceió. Essas obras estiveram expostas na bienal de Veneza e uma delas, a “Think Brasil”, esteve no Louvre, em Paris, no Salão de Belas Artes. Estou honrada em estar sendo tão bem representada no Brasil, depois de anos que estou fora. No momento certo Deus preparou pessoas lindas que estão dando a oportunidade de eu apresentar a minha arte.

(T.S.) Além de pintora, você também é escritora. Como você faz para conciliar essas duas artes em sua vida profissional?

(G.C.) Gosto muito de colocar no que escrevo o que eu sinto e penso. Adoro filosofia e poesia.
Enquanto pintei centenas de quadros, com a literatura escrevi bastante, porém só tenho duas publicações. Uma é um conto filosófico, que fala de uma menina chamada Ana. Ela sou eu antes e agora. Essa publicação saiu em uma antologia bilingue português/italiano, de nome “Vozes e Voci”, e teve na capa a minha obra “Think Brasil”, em homenagem ao nosso lindo país. O livro foi apresentado em São Paulo, na Casa das Rosas. No outro, uma coletânia da Academia Luminescência Brasileira, escrevi uma linda poesia sobre a vida.

(T.S.) Você já ganhou algum prêmio como artista plástica ou como escritora?

(G.C.) Ganhei o prêmio do Júri em 2014, pela Sociedade Nacional de Belas Artes de Paris, durante o Salão de Belas Artes, muito conhecido como o “Salon des Impressionist de Paris”.
Ganhei o prêmio “Personalidades do Brasil”, indicada pela Academia de Ciências Letras e Artes, onde tomei posse em Araraquara, São Paulo, como membro imortal. Ganhei uma menção de honra, na categoria ouro, em um Concurso Literário Internacional, com o meu monólogo “Lição de Amor”, publicado pela editora Mandala e apresentado em São Paulo na Casa das Rosas. E também recebi outras menções, como por exemplo, em um prêmio pictórico, dedicado ao grande artista Lodigiano Brambati.

(T.S.) Fique à vontade para as considerações finais. O jornal Tribuna do Sertão, de Palmeira dos Índios, agradece pela entrevista.

(G.C.) Gostaria de agradecer imensamente a você, Lucianna, ao Jornal Tribuna do Sertão, ao meu amigo querido, conterrâneo e grande estrela do sax brasileiro, o Júnior Maceió, que nos apresentou, ao meu primo, o cantor Alex Barros, e ao Cláudio Pinto, que há pouco estivemos juntos aqui em Milão.


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